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Cachoeiras com águas cristalinas são atrativo de região quilombola na Chapada dos Veadeiros

Cachoeiras com águas cristalinas são atrativo de região quilombola na Chapada dos Veadeiros

08/11/2019 as 08:05

Por Paula Paiva Paulo, G1

 


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Cachoeiras com águas cristalinas são atrativo de região quilombola na Chapada dos Veadeiro

Fora do circuito tradicional de quem procura a Chapada dos Veadeiros, cachoeiras com águas cristalinas e a oportunidade de conhecer um território quilombola têm atraído turistas ao Engenho II, em Goiás. A comunidade faz parte do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, o maior quilombo do país.

A estrela do roteiro é a cachoeira Santa Bárbara. Com uma queda de 28 metros e cor azul turquesa, os turistas chegam a fazer fila para tirar foto no melhor ângulo da cachoeira - ainda que isso os faça perder parte da uma hora autorizada aos visitantes no local. A cor da água é resultado da formação de calcário do fundo da cachoeira. A hora mais desejada dos turistas no local é entre as 10h e 13h, quando a luz do sol incide na água, revelando todas as cores da cachoeira.

Por ser um local de preservação ambiental, além do tempo de permanência, a cachoeira recebe no máximo 300 turistas por dia.

Cachoeira Santa Bárbara é a estrela do roteiro turístico de Cavalcante. Água azul turquesa é resultado da formação de calcário do lugar — Foto: Fábio Tito/G1Cachoeira Santa Bárbara é a estrela do roteiro turístico de Cavalcante. Água azul turquesa é resultado da formação de calcário do lugar — Foto: Fábio Tito/G1

Cachoeira Santa Bárbara é a estrela do roteiro turístico de Cavalcante. Água azul turquesa é resultado da formação de calcário do lugar — Foto: Fábio Tito/G1

Em outras cachoeiras, como Candaru e Capivara, não há tempo máximo de permanência, e o limite de visitantes diários sobe para 400.

O Engenho II é uma área do município de Cavalcante, distante quatro horas de carro de Brasília, pela BR-010. Do centro de Cavalcante, o turista percorre mais uma hora para chegar ao Centro de Atendimento ao Turista (CAT) do Engenho II.

Lá, é obrigatório contratar um guia cadastrado para acessar a rota das cachoeiras. Cada guia acompanha grupos de até seis pessoas. Para visitar duas cachoeiras, a diária do profissional sai R$ 100. Para ir em três, R$ 150.

Além da diária do guia, é preciso pagar pelo ingresso das cachoeiras. No CAT, a entrada da Santa Bárbara, a mais cara, custa R$ 20. Das 300 entradas diárias, 100 são vendidas pela internet. Assim, o visitante evita ter que chegar muito cedo no CAT para garantir o ingresso.

Cachoeira Candaru tem uma queda de 80 metros e limite de 400 visitantes por dia — Foto: Fábio Tito/G1Cachoeira Candaru tem uma queda de 80 metros e limite de 400 visitantes por dia — Foto: Fábio Tito/G1

Cachoeira Candaru tem uma queda de 80 metros e limite de 400 visitantes por dia — Foto: Fábio Tito/G1

As trilhas do roteiro das cachoeiras foram planejadas pelos kalungas para não causar estragos à natureza. Na caminhada até a Santa Bárbara, por exemplo, o trajeto mais curto seria seguir em linha reta, mas um trecho do percurso é feito em zigue-zague, para evitar a erosão do solo.

“O caminho é planejado para a preservação do Cerrado, das pessoas que aqui vivem. Porque tem pessoa que só vai vir aqui uma vez na vida, e a gente vai permanecer aqui a vida toda”, disse o guia ambiental Geovan dos Santos Moreira.

Turismo ‘aquilombado’

O dinheiro arrecadado com os ingressos das cachoeiras é direcionado para as associações kalungas da região. O recurso é usado para a manutenção e melhoria da infraestrutura local.

Com o dinheiro do turismo, o Engenho II conseguiu ter água encanada e até Wi-Fi em alguns pontos - serviços básicos que ainda não chegaram em outras comunidades quilombolas da região, como o Vão de Almas e o Vão do Moleque.

Já há, porém, a preocupação de que a exploração do turismo possa ser predatória e relegue aos habitantes e histórias locais um papel secundário.

O guia ambiental Geovan dos Santos Moreira conta a história kalunga durante o passeio guiado nas cachoeiras de Cavalcante — Foto: Fábio Tito/G1O guia ambiental Geovan dos Santos Moreira conta a história kalunga durante o passeio guiado nas cachoeiras de Cavalcante — Foto: Fábio Tito/G1

O guia ambiental Geovan dos Santos Moreira conta a história kalunga durante o passeio guiado nas cachoeiras de Cavalcante — Foto: Fábio Tito/G1

Para a turismóloga Rosiene Francisco dos Santos, é preciso apresentar aos turistas roteiros e passeios que incluam os conhecimentos dos kalungas. Assim, acredita ela, a memória kalunga não se perderia em meio às selfies tiradas pelos turistas. “Quando falam desta área da Chapada dos Veadeiros, às vezes o quilombo é apagado, é silenciado”.

Rosiene defendeu sua tese no mestrado da UNB sobre os limites e possibilidades da exploração do turismo na região. Pensando nisso, ela criou o termo “turismo aquilombado”.

“O turismo lá começou pelos galhos e esqueceu o tronco e as raízes. Esse ‘aquilombado’ é nesse sentido, de as pessoas tentarem ver ou entender a raiz, e depois irem para os galhos”.

Uma das maneiras de conhecer a história local é contratando um profissional kalunga. “Assim, você ajuda a contribuir com a economia local da comunidade, além de ter todas as informações do território vindas de quem vive aqui mesmo”, disse o guia Geovan.

Existe também o estudo para a criação de um centro de memória kalunga no CAT engenho II.

Uma das maneiras de conhecer a história local é contratando um profissional kalunga. — Foto: Fábio Tito/G1Uma das maneiras de conhecer a história local é contratando um profissional kalunga. — Foto: Fábio Tito/G1

Uma das maneiras de conhecer a história local é contratando um profissional kalunga. — Foto: Fábio Tito/G1

Mestra em Turismo pela UNB, Rosiene dos Santos escreveu sobre os limites e possibilidades do turismo na região quilombola — Foto: Fábio Tito/G1Mestra em Turismo pela UNB, Rosiene dos Santos escreveu sobre os limites e possibilidades do turismo na região quilombola — Foto: Fábio Tito/G1